Penélope - Conto
No começo da madrugada, as pernas ficaram inquietas e teve que levantar; arrastou as cobertas para a varanda e ficou ali observando a rua vazia, sentindo a brisa fria nos cabelos louros embaraçados, e debulhou os botões de ouro que enfeitavam a frente da casa, as pétalas douradas caindo sobre o colo. No céu escuro, uma estrela pulsante se destacava, solitária. De início, pensou que a vista estava falhando, mas observando por mais tempo percebeu que a estrela variava mesmo, ora fraca, quase imperceptível, e depois tão forte quanto a lua. Penélope olhava o céu e pensava em Maurício, se estava bem, se estava vindo.
As cartas chegavam às terças-feiras. Penélope reconhecia o envelope antes mesmo de o carteiro estender a mão, pelo formato alongado e as manchas de terra. Lia-as na varanda, sempre na mesma cadeira, e depois as guardava entre as páginas de um livro que nunca terminava de ler. A última, enviada há dois meses, dizia pouco. Maurício escreveu que o Capitão estava dispensando soldados, que voltaria no dia dez de Outubro, e encerrou com uma frase que Penélope releu tantas vezes que o papel ficou translúcido naquele ponto, onde dizia que só queria voltar para casa e ficar na varanda observando a Penélope de cabelos embaraçados, os primeiros raios de sol, a estrela sumindo no lilás do amanhecer.
Quando viu o orvalho da manhã, Penélope lembrou da última vez em que tomaram banho juntos, uma semana antes de ele partir. Maurício afundou o rosto na água e soprou até a espuma transbordar, e quando subiu sacudiu os cabelos como um cachorro e ela gritou que ia matá-lo, rindo tanto que engoliu água. Depois ficaram quietos, ela com as costas no peito dele, a água morna esfriando devagar. Maurício disse que queria dois filhos, talvez três. Penélope disse que primeiro queria um quintal maior. Ficaram discutindo isso até começarem a tremer, vestiram-se e foram para a cozinha, tomaram café, Maurício enrolou um cigarro e Penélope começou a tricotar, os dois trocavam olhares e sorrisos.
De manhã, Penélope iniciou os preparativos. Foi à feira comprar as frutas vermelhas para a sobremesa, o pernil para rechear e o licor de amêndoas que Maurício gostava. Na feira, a dona Glória, que vendia as frutas, embrulhou as amoras em papel de seda em vez de jornal. “Hoje é dia de festa”, disse, e Penélope percebeu que ela havia pintado os lábios, coisa que não fazia desde que o marido partiu. Mais adiante, a mulher do açougueiro estendia uma bandeira na janela, mas as mãos tremiam e a bandeira caiu duas vezes antes de ficar firme. Todos sabiam que o filho mais velho dela não voltaria.
Em casa, Penélope organizou as travessas e deixou o jantar encaminhado. Terminou antes do meio-dia e desejou recomeçar tudo para o tempo passar mais rápido. Decidiu enfeitar a casa, pendurou fitinhas amarelas na porta e ficou olhando por um instante, tentando ver a entrada como Maurício a veria quando chegasse. Depois estendeu na cama os lençóis que guardava desde o casamento, aqueles de algodão egípcio que a mãe lhe dera dizendo que só se usam em noites que se quer lembrar. Um pouco cansada, deitou-se, acariciou a cama no lado de Maurício, fechou os olhos só por um instante, até que o sono chegou. Ele estava parado a alguns metros dela, o rosto esquelético de barba por fazer e cabelos longos; vestia um uniforme esfarrapado e segurava uma arma longa nas mãos. Penélope quis ir até ele, mas um precipício abriu-se no chão, e aumentava a cada segundo. O chão tremia e seus pés afundavam na lama, e mesmo que decidisse pular não conseguiria. Maurício, agora mais distante, a olhava fixamente, sem reação, e em uma linha reta da cabeça dele até o céu, aquela mesma estrela pulsante brilhava sozinha, até se apagar, e nesse instante Penélope acordou, as mãos agarradas no travesseiro. Ouviu o relógio batendo seis horas na cozinha, o comboio chegaria a qualquer momento. Foi até a janela que dava para a rua, as pessoas iam em grupos para a estação de trem.
Para passar o tempo, ligou o rádio, pegou o rolo de lã e pôs-se a tricotar um gorro de inverno. O sol ia se pondo quando o programa semanal de Astronomia começou. O locutor detalhou as constelações visíveis, a fase da lua e como ela influenciaria as próximas semanas de colheita; mencionou alguns corpos celestes em movimento e, então, falou sobre as estrelas mortas, cuja explosão produz um efeito visual extraordinário que para nós, na Terra, chega em forma de dança, uma luz que se acende e se apaga repetidamente por milhares de anos. Muitas das estrelas que vemos no céu todas as noites podem estar mortas há muito tempo, ainda que nunca o saibamos.
O relógio marcava meia noite quando acordou com o toque da campainha. Penélope abriu a porta e não o reconheceu por um segundo. Maurício estava mais magro, o uniforme pendurado nos ombros como num cabide, e tinha uma cicatriz fina que descia da orelha até a mandíbula, mas sorria, e o sorriso era o mesmo. Ela quis dizer alguma coisa, tinha ensaiado frases a semana inteira, mas o que fez foi agarrar a gola da camisa e puxá-lo para dentro. Ficaram abraçados no corredor escuro sem dizer nada, ele sentindo o mesmo perfume do casamento; ela, o cheiro de naftalina do uniforme. Quando finalmente se separaram, Penélope viu que havia molhado o ombro dele inteiro. Maurício olhou para a mancha e disse: “Agora vai ter que lavar meu uniforme”.
Penélope acordou com o som da água. Por um instante não soube onde estava, e depois soube: Maurício estava ali, o som vinha do banheiro, a guerra tinha acabado. Encontrou-o de pé diante da banheira, testando a temperatura com o dorso da mão, como fazia antes, como se o ano inteiro não tivesse existido. Ele a olhou e disse: “Está no ponto”. Penélope entrou na água, sentiu o calor subindo pelas pernas e fechou os olhos, e quando os abriu Maurício já estava do outro lado, e os dois se olharam.
Ficaram assim por um tempo. Maurício ia dizendo coisas, que sonhara com aquela banheira, que o inverno no front era tão frio que a água do cantil amanhecia congelada, que certa noite tentou imaginar o calor daquela água e não conseguiu, e o corpo já não lembrava. Penélope ouvia e não ouvia, ocupada em reaprender a presença dele, a forma estranha dos dedos do pé que apareciam e sumiam na superfície, a cicatriz nova, o modo como a voz dele ressoava diferente no ar úmido do banheiro.
Então Maurício sorriu daquele jeito que ela conhecia, e começou a afundar devagar, os olhos abertos, deixando a água cobrir o queixo, a boca, o nariz, até sumir por inteiro. Penélope esperou. Sabia o que viria: o salto, os cabelos sacudidos, a água toda no chão, seus gritos. Contou até cinco. Até dez. A superfície continuava lisa. Chamou-o pelo nome, primeiro em tom de brincadeira, depois em tom sério. Procurou-o com os pés e não encontrou nada. Mergulhou as mãos e a água estava mais funda do que deveria estar, mais funda do que qualquer banheira pode ser, e fria como não estava um segundo antes. Chamou-o outra vez. A luz do banheiro parecia mais fraca, ou eram as paredes que se afastavam, mas não havia mais paredes, nem piso, nem bordas de louça, apenas um oceano escuro e agitado que a engolia mais a cada vez que gritava o nome de Maurício.
Ele emergiu sacudindo os cabelos como um cachorro e rindo do próprio truque, preparado para o grito e o tapa no ombro, e encontrou Penélope encostada na borda da banheira, os cabelos dourados flutuando na água escura, os lábios entreabertos e os olhos parados, brilhando com uma luz que ele nunca tinha visto neles, uma luz que não parecia vir de dentro nem de fora, e que pulsava muito suavemente, como uma estrela longe demais para saber se ainda existe.


🔥🔥🔥